A roda dos expostos, surge na Idade Média, na Itália, através da Irmandade de Caridade que manifesta preocupação com o grande número de recém-nascidos abandonados. A intenção era salvaguardar a criança exposta ou abandonada, quer por motivos de falta de recursos económicos o que impedia que os familiares pudessem ficar com a sua guarda ou pela maternidade ter ocorrido fora do casamento. Com a criação desta medida, não a ideal, mas a possível, evitava-se o infanticídio. “Não existindo pais ou familiares que assumissem essa responsabilidade, cabia aos municípios assumirem os encargos com a criação dessas crianças. Estes deveriam reunir os fundos necessários para pagamento às amas que as amamentam, bem como satisfazer todas as despesas inerentes à sua criação até aos 7 anos de idade.” (Rocha & Amorim, 2019, p. 449).
O nome Roda refere-se ao mecanismo de madeira fixado num edifício, cujo objetivo era permitir que a criança fosse entregue sem que implicasse a revelação da identidade de quem a entregava, um abandono anónimo. Em Portugal as Casas da Roda surgem nos finais do século XVIII, “As Rodas representam um dos primeiros mecanismos de assistência à infância, depois do surgimento dos antigos “Hospitais para Meninos”. (Mendes, 2016, p. 21). Nos Açores a criação da Roda situa-se em 1719. O número de abandonados atinge o maior volume de exposições nos anos de 1830, 1831 e 1832, “atingindo mesmo os 250 expostos no ano de 1831”, sendo extinta em 1874, com a criação do Hospício. (Rocha & Amorim, 2019, p. 453).
Na atualidade, há relatos baseados num estudo de Kevin Browne, investigador da Universidade de Nottingham, que alguns países da UE têm "rodas dos enjeitados", nomeadamente a Alemanha e na Polónia, onde é possível encontrar dispositivos anónimos, parecidos com a Roda dos Expostos oitocentista. A intenção é a mesma, salvar vidas, mas a questão coloca-se: a responsabilização pelo ato de abandono, fica novamente impune? A legalidade destes dispositivos coloca questões de ordem jurídica e ética, sendo a sua instituição reprovada pela ONU.
Uma "roda" moderna num hospital em Dortmund, Alemanha
Foto Reuters
Referências bibliográficas:
Rocha, E. & Amorim, M. N. (2019). Um fenómeno perturbador: os abandonados nas Rodas de Horta e Angra nos séculos XVIII e XIX. O Faial e a Periferia Açoriana nos Séculos XV a XX, Atas do VII Colóquio (pp. 447-461). Horta: Núcleo Cultural da Horta.
O Regresso da Roda dos Expostos. Disponível em: https://expresso.pt/actualidade/o-regresso-da-roda-dos-expostos=f762582. Acedido em 23 de agosto de 2020.


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