sábado, 29 de agosto de 2020

A queima dos livros

Há aproximadamente 5300 anos na Suméria surgiram os primeiros protótipos de livros da humanidade: as tábuas de argila e também os indícios da sua destruição voluntária. Algumas tábuas de argila foram encontradas fragmentadas provavelmente pela ação de elementos naturais, outras queimadas pelo conflito que havia entre as cidades-estado. Alguns exércitos na tentativa de aniquilamento da cultura local incendiavam estrategicamente algumas das estruturas arquitetónicas mais importantes da cidade, onde o conhecimento era preservado, o que provocou o desaparecimento de muitos desses registos.


Hoje, 29 de agosto de 2020, foi noticiado um confronto na cidade de Malmö, Suécia, entre membros do partido da extrema direita e a polícia, uma manifestação antimuçulmana, na qual esteve implicada a queima de um exemplar do Alcorão.  A queima do livro representa um ato de violação dos direitos culturais e um impedimento ofensivo à preservação da memória, história e identidade coletiva de um povo, tornando inacessível o seu conhecimento.

Referências bibliográficas:

Báez, F. (2004). A História Universal da destruição dos livros, das tábuas da Suméria à guerra do Iraque. Ediouro. A versão digital é da responsabilidade da equipa Le Livros.

Distúrbios na Suécia depois de militantes de extrema-direita queimarem um Corão. Disponível em: https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/disturbios-na-suecia-depois-de-militantes-de-extrema-direita-queimarem-um-corao, acedido em: 29 de agosto de 2020.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Diderot: o livre pensador

Denis Diderot o frequentador dos salões literários de Louise Henriche Volland, amigo de Jean-Jacques Rousseau, cofundador e editor chefe da redação da Enciclopédia, assume-se como um fiel investigador da verdade e defensor do poder emancipador da filosofia. Para Andrew S. Curran, o escritor da sua biografia, Diderot é um mestre com o qual podemos aprender a arte de pensar livremente, o que nos pode libertar de tabus, dogmas e convenções que limitam o exercício livre da razão. A sua biografia, Diderot e a Arte de pensar livremente, revela o “aspirante eclesiástico, o livre-pensador, o ateísta, o prisioneiro do Estado e finalmente o enciclopedista e o filósofo.”


Um questionador das suas próprias crenças e dos dogmas nos quais assentava o catolicismo, Diderot passou a ser caracterizado pelo seu pensamento irreligioso. Em 1776 publica a obra Pensamentos Filosóficos constituída por 62 ensaios nos quais aborda a conceção de Deus, o deísmo, o ceticismo e o ateísmo. Combater a visão sombria de que a condição humana trazia a marca do pecado original e as ideias de um deus vingativo e caprichoso, fez com que Diderot tivesse de aprender a lidar com o ateísmo e com a conceção de um mundo sem Deus, mas o que ficou depois de Deus desaparecer? “Seres humanos desprovidos de alma que pareciam pouco mais do que máquinas a viverem num numo determinista, em que todos os acontecimentos estavam preordenados, não por uma divindade omnisciente, mas por um conjunto de regras mecanicistas.” (Curran, 2019, p. 77).

Uma leitura inquietante sobre um homem muito à frente do seu tempo, um livre pensador que nos conduz ao confronto e ao questionamento das nossas próprias inseguranças e hesitações na busca pela verdade.  

Diderot um filósofo com o qual é possível dialogar e encontrar alguns pontos de convergência: o gosto pela leitura, pela literatura, pela filosofia e pela procura de um conhecimento verdadeiro.

domingo, 23 de agosto de 2020

As salas da memória do Arquivo: A Roda dos Expostos

A roda dos expostos, surge na Idade Média, na Itália, através da Irmandade de Caridade que manifesta preocupação com o grande número de recém-nascidos abandonados. A intenção era salvaguardar a criança exposta ou abandonada, quer por motivos de falta de recursos económicos o que impedia que os familiares pudessem ficar com a sua guarda ou pela maternidade ter ocorrido fora do casamento. Com a criação desta medida, não a ideal, mas a possível, evitava-se o infanticídio. “Não existindo pais ou familiares que assumissem essa responsabilidade, cabia aos municípios assumirem os encargos com a criação dessas crianças. Estes deveriam reunir os fundos necessários para pagamento às amas que as amamentam, bem como satisfazer todas as despesas inerentes à sua criação até aos 7 anos de idade.” (Rocha & Amorim, 2019, p. 449).

O nome Roda refere-se ao mecanismo de madeira fixado num edifício, cujo objetivo era permitir que a criança fosse entregue sem que implicasse a revelação da identidade de quem a entregava, um abandono anónimo. Em Portugal as Casas da Roda surgem nos finais do século XVIII, “As Rodas representam um dos primeiros mecanismos de assistência à infância, depois do surgimento dos antigos “Hospitais para Meninos”. (Mendes, 2016, p. 21). Nos Açores a criação da Roda situa-se em 1719. O número de abandonados atinge o maior volume de exposições nos anos de 1830, 1831 e 1832, “atingindo mesmo os 250 expostos no ano de 1831”, sendo extinta em 1874, com a criação do Hospício.  (Rocha & Amorim, 2019, p. 453).

Na atualidade, há relatos baseados num estudo de Kevin Browne, investigador da Universidade de Nottingham, que alguns países da UE têm "rodas dos enjeitados", nomeadamente a Alemanha e na Polónia, onde é possível encontrar dispositivos anónimos, parecidos com a Roda dos Expostos oitocentista. A intenção é a mesma, salvar vidas, mas a questão coloca-se: a responsabilização pelo ato de abandono, fica novamente impune? A legalidade destes dispositivos coloca questões de ordem jurídica e ética, sendo a sua instituição reprovada pela ONU.

Foto Reuters

Uma "roda" moderna num hospital em Dortmund, Alemanha

Foto Reuters

Referências bibliográficas:

Rocha, E. & Amorim, M. N. (2019). Um fenómeno perturbador: os abandonados nas Rodas de Horta e Angra nos séculos XVIII e XIX. O Faial e a Periferia Açoriana nos Séculos XV a XX, Atas do VII Colóquio (pp. 447-461). Horta: Núcleo Cultural da Horta.

O Regresso da Roda dos Expostos. Disponível em: https://expresso.pt/actualidade/o-regresso-da-roda-dos-expostos=f762582. Acedido em 23 de agosto de 2020.


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O Sentido e a Interpretação da Obra Literária

Foto de Nong Vang em Unsplash

O sentido da leitura de um texto pode-se expandir ou contrair de acordo com as capacidades do leitor, sobretudo devido à sua capacidade de memória ao criar interligações a outras leituras, que pelo poder da associação mental podem despertar novas ideias, recriar pensamentos, dotando assim o leitor com um poder de imaginar novos mundos pelo encontro com uma interpretação livre e de abertura a novos sentidos de leitura do texto. Como refere, Alberto Manguel, “Perante um texto, o leitor pode transformar as palavras numa mensagem que lhe decifre um problema não relacionado historicamente com o texto ou o seu autor. Esta transmigração de sentido pode alargar ou empobrecer o próprio texto; invariavelmente, impregna-o com as circunstâncias do leitor. Através da ignorância, da fé, da inteligência, de truques e astúcias, de revelações, o leitor reescreve o texto com as mesmas palavras do original, mas sob um outro cabeçalho, recriando-o, por assim dizer, no próprio ato de lhe dar o ser.”

Livro disponível para empréstimo na BPARLSR

Como primeira sugestão de leitura fica a obra de Alberto Manguel, Uma História da Leitura, tradução de Ana Saldanha, na qual o leitor pode viajar pelos mundos possíveis dos vários tipos de leitura: leitura de imagens, leitura ouvida, leitura íntima ou leitura proibida. Como expressa o pensamento de Italo Calvino, “Ler significa aproximarmo-nos de algo que está nesse momento em devir.”

 MPC